SOCIOLOGY-MARKETING
O conceito do tabuleiro social na leitura de pesquisas e elaboração de planejamentos
Por: Laura Chiavone
Publicado no Blog Sapo de Dentro do site Meio & Mensagem
O QUE A SOCIOLOGIA TEM PARA NÓS?
Sinal dos tempos. Nem todas as fórmulas de marketing e entendimento do consumidor funcionam como antigamente. O cenário de mercado traz novos desafios e se estabelece a corrida por novos formatos de trabalho e maneiras de pensar. As ciências humanas, por exemplo, vem sendo usadas como inspiração nos instrumentos de pesquisa de marketing. Muito se fala em psicologia, antropologia e etnografia. O fato é que estas ciências se propõe, de forma bastante eficiente quando bem aplicadas, a estudar o homem, as suas dinâmicas em pequenos recortes. Presenciamos hoje uma série de mudanças globais e estruturais que alteram o todo e os recortes de maneira recíproca e contínua. Neste cenário, a sociologia propõe conceitos inspiradores na busca por estratégias eficientes de negócios e comunicação.
Vivemos uma era de transformações. Da noção do tempo, das formas de comunicação, das mídias, mas principalmente da relação das pessoas com as marcas. Numa tarefa contínua de acompanhamento do mercado e tomada de decisões de marketing, três questionamentos são freqüentes entre os gestores de comunicação:
/Como compreender as transformações, mantendo a sua marca relevante e diferenciada?
/Quais instrumentos utilizar para o desenvolvimento de estratégias consistentes?
/Quais critérios adotar para selecionar as melhores ferramentas de entendimento do consumidor e identificação de tendências?
Entender movimentos mais amplos auxilia em estratégias vencedoras e consistentes, pensando desde a satisfação do acionista até a construção de lealdade de marcas. A sociologia é um bom instrumento para compreender as transformações de forma mais consistente. Ela é uma ciência que pretende estudar o conjunto de comportamentos pessoais que formam e transformam dinâmicas sociais. Como definiria Norbert Elias, importante sociólogo do século 20, “o objeto de estudo da sociologia são as redes de interrelações, as interdependências, as figurações e os processos formados pelos homens independentes” [extraído de Qu’est-ce que la sociologie?, de 1970].
Existe uma série de ferramentas de pesquisa, de estratégia, de inovação e busca por tendências. Metodologias inovadoras ajudam, mas não fazem uma estratégia vencedora se não apontam caminhos claros e eficientes dentro de um contexto social em movimento contínuo. A ineficiência se encontra quando identificamos dados ou insights que não conseguimos utilizar ou que não dialogam com os objetivos de mercado de uma companhia ou os objetivos de comunicação de uma marca. Voltando à Norbert Elias, aprendemos que nenhum movimento ou insight deve ser observado sozinho, uma vez que toda a dinâmica social está interligada e funciona como uma rede que se alimenta continuamente. Considerando, por exemplo, a revolução do papel da mulher iniciada na década de 70, não surpreende que hoje 31% dos lares brasileiros tem a mulher como provedora central [PNAD]. Olhando para frente e ainda falando das mulheres como exemplo, são elas hoje a maioria entre os alunos de ensino superior. Como utilizar este dado para definir estratégias? Quais as conseqüências deste fato nos hábitos de consumo familiares, no comportamento da próxima geração de adolescentes, no papel do homem e na relação com as marcas? Poderíamos estender os questionamentos para a rápida absorção de tecnologia, o aquecimento global, a importância das culturas locais em tempos de globalização. Vivemos numa dinâmica interligada, onde fenômenos não acontecem por acaso e nem de forma isolada. Os comportamentos dos indivíduos impactam tudo ao seu redor e à sociedade, assim como os movimentos da sociedade impactam os indivíduos e os seus comportamentos. “Elias coloca como centrais as redes de dependências recíprocas que fazem com que cada ação individual dependa de toda uma série de outras, porém modificando, por sua vez, a própria imagem do jogo social.” [Chartier, Roger – Prefácio de A Sociedade de Corte de Norbert Elias (p.13)]. Para compreender este permanente processo de relações em cadeia, Elias se utiliza da [boa] metáfora do tabuleiro de xadrez: “como em um jogo de xadrez, cada ação decidida de maneira relativamente independente por um indivíduo representa um movimento no tabuleiro social, jogada que por sua vez acarreta um movimento de outro indivíduo – ou, na realidade, de muitos outros indivíduos…”(p.158)
Um aprendizado importante destes conceitos diz respeito ao nosso olhar em relação às ferramentas estratégicas e metodologias de pesquisa. É preciso contextualizar a informação e utilizar uma visão analítica mais ampla, que fuja de uma leitura linear dos movimentos sociais, da imagem das marcas e do papel dos produtos na vida das pessoas. Um exemplo claro da importância da não linearidade se dá quando diagnosticamos que o discurso dos consumidores é, muitas vezes, diferente daquilo que eles realmente fazem no seu dia-a-dia. É freqüente encontrarmos pessoas afirmam que consomem esta marca, quando consomem outra; que seguem uma dieta saudável de alimentação, quando tem uma série de alimentos pouco saudáveis na geladeira; ou que impõe bastante limites aos seus filhos, e notamos capetinhas aterrorizando a casa. Nos deparamos com estes discursos em pesquisas com consumidores, nas novelas, em conversas de botequim. São discursos assumidos socialmente, impostos como condição para a participação satisfatória no tabuleiro social, mas que não necessariamente refletem a ação real dessas pessoas, o seu comportamento de compra e as marcas que escolhem. Muito menos explicam os seus reais motivadores e critérios em relação a este ou aquele produto.
A adoção de marcas é produto de uma combinação destes dois elementos: daquilo que a sociedade coloca como interessante e daquilo que o indivíduo escolhe de forma independente. Ele deve satisfazer ao mesmo tempo os seus desejos próprios, e fazer a manutenção da sua participação na sociedade, comunidade, vilarejo. A relação dos consumidores com as marcas se alteram o tempo todo, porque figuram dentro de uma dinâmica de milhões de variáveis, se considerarmos que cada indivíduo exerce força sobre muitos outros e, ainda, se considerarmos que a proliferação das mídias [especialmente da internet] aceleram a troca de informações e opiniões.
Complicado? Um pouco. Mas não menos complicado do que fazer empresas se manterem rentáveis em uma era de mudanças e reinvenção dos conceitos de marketing. Na realidade estas idéias apenas transformam em conceitos dinâmicas que sempre estiveram aí, mas que talvez não demandassem tanta atenção quando os tempos eram bons, a concorrência era menor e o consumidor acreditava mais facilmente nas mensagens de comunicação. Talvez por esta razão que as antigas fórmulas não funcionam mais. O jogo mudou, ou melhor, muda todo o tempo. A sociologia nos auxilia a compreender as regras do jogo, como se movem os peões e, se livrando de análises lineares, nos ajuda a antever movimentos futuros.
WHAT AM I LOOKING FOR? TIME.
Por: Laura Chiavone
Publicado no Blog do Planner
São longas as discussões, muitos os livros e palestras sobre o valor do tempo. O tempo é a última coqueluxe, uma iguaria disponível para poucos. Nos nossos tempos, vivemos todos na dita correria do dia-a-dia – protagonista do conceito de quase todas as marcas com atributos de praticidades e conveniência - e somos tomados cada vez por reuniões, compromissos e pelo trânsito das grandes cidades. E qual a implicação dessa correria no nosso trabalho? Os prazos apertados, milhões de reuniões e demandas e a dificuldade de encontrar tempo para pensar, criar e avaliar as nossas idéias. Não se engane, eu não estou falando apenas do tempo em termos quantitativos. É claro que ele é fundamental, mas estou tratando sobretudo da qualidade do tempo empregado nos nossos projetos. Estes dias aconteceram duas coisas que me chamaram à atenção para esse assunto: a primeira foi que estava falando com uma amiga planner que trabalha fora do Brasil e ela compartilhou comigo como funcionam os processos de trabalho na Europa. Ela me contou que os cronogramas dos projetos são organizados com uma grande antecedência e que eles prevêem os timings necessários para cliente, agencia e produção trabalharem. Melhor: que esses timings são negociados entre as partes antes do início do trabalho. Que beleza. Isso só nos mostra uma coisa: é possível dispor do tal do tempo desde que haja lucidez na equipe – meaning cliente + agencia.
Falando em lucidez, chegamos à segunda coisa extraordinária que aconteceu esses dias. Apos receber um briefing e aprovar um projeto com o cliente, chegamos, juntos, à conclusão que o prazo para a realização do trabalho estava muito curto em relação à expectativa dos outputs do projeto. O que fazer? Simples: mais prazo. Se está claro para ambas as partes o tipo de benefício que o trabalho final vai trazer em termos de resultados se conseguirmos mais prazo, é meio caminho andado. Eu consegui mais prazo!!! Sabe o que é melhor. Que o prazo fez diferença mesmo. Os dias extras que tivemos trouxe dois grandes ganhos. O primeiro foi a oportunidade de discutir, alinhar e aprovar com o cliente os caminhos que estávamos trabalhando. E o segundo foi simplesmente o amadurecimento das questões centrais nas nossas cabeças, que possibilitou o aparecimento de novos insights e um salto qualitativo imenso em termos de qualidade e eficiência do resultado. Uma coisa que sempre discuto no Bootcamp e a vida me faz acreditar cada vez mais: a idéia não tem hora pra aparecer. Mas se vc cultiva um ambiente de fomentação criativa e responsabilidade com as questões do cliente, vc está construindo as idéias antes de saber quais elas são. Foi genial. Queria muito compartilhar a experiência como um incentivo ao bom senso para a negociação de prazos.